Nos últimos anos, a cirurgia urológica tem experimentado avanços significativos com a incorporação da tecnologia robótica, especialmente nas nefrectomias parciais. A preservação da função renal, a segurança oncológica e a redução de complicações têm direcionado a evolução das técnicas. 

Nesse contexto, a introdução da fluorescência com verde de indocianina (ICG), integrada à plataforma Firefly do sistema robótico Da Vinci, representa um grande avanço no conceito de cirurgia guiada por imagem.

O uso intraoperatório da fluorescência com ICG permite visualização dinâmica da anatomia vascular renal e diferenciação entre parênquima saudável e tumoral, facilitando decisões críticas durante a nefrectomia. Ao combinar os benefícios da cirurgia minimamente invasiva com a precisão da imagem guiada, essa abordagem tem mostrado impacto direto na preservação da função renal e na segurança oncológica.

É sobre isso que descobriremos no texto de hoje. Boa leitura!

DESCUBRA NA LEITURA DESSE TEXTO

  • Fundamentos Técnicos e Mecanismo da Fluorescência com ICG
  • Preservação da Função Renal e Tempo de Isquemia
  • Delineamento Anatômico Vascular e Diferenciação Tumoral
  • Segurança e Padronização da Técnica
  • Impacto na Prática Clínica Atual

Fundamentos Técnicos e Mecanismo da Fluorescência com ICG

O termo “Firefly” refere-se à tecnologia de imagem de fluorescência integrada ao sistema robótico da Vinci, que utiliza o corante verde de indocianina (ICG) para visualização intraoperatória em nefrectomias robóticas. 

O verde de indocianina (ICG) é um corante fluorescente que, após injeção intravenosa, se liga às proteínas plasmáticas e emite fluorescência quando excitado por luz infravermelha próxima. O sistema Firefly, integrado ao robô Da Vinci, detecta essa fluorescência em tempo real, fornecendo uma visão anatômica detalhada do rim, seus vasos e padrões de perfusão.

Principais utilidades do ICG em nefrectomia parcial robótica:

  1. Mapeamento vascular renal: permite identificar e realizar clampeamento seletivo das artérias segmentares, reduzindo o tempo de isquemia global.
  2. Diferenciação tumoral: a maioria dos carcinomas de células renais não apresenta fluorescência, aparecendo como áreas hipofluorescentes, em contraste com o parênquima normal.
  3. Margens cirúrgicas: auxilia na avaliação intraoperatória das margens de ressecção.
  4. Segurança: ausência de toxicidade relevante, com raríssimos efeitos adversos descritos.

Esses são apenas alguns dos inúmeros benefícios em se utilizar a fluorescência com indocianina na robótica.

Preservação da Função Renal e Tempo de Isquemia

A preservação da função renal pós-operatória é um dos principais objetivos da nefrectomia parcial. O tempo de isquemia quente está diretamente associado ao grau de perda funcional.

A utilização da fluorescência com ICG está associada à diminuição do tempo de isquemia quente durante a nefrectomia parcial robótica, o que contribui para melhor preservação da função renal pós-operatória. 

Meta-análises e estudos comparativos demonstram que pacientes operados com auxílio da tecnologia Firefly apresentam menor tempo de isquemia e melhor taxa de preservação do eGFR (taxa de filtração glomerular estimada) em curto prazo, sem aumento nas taxas de margens cirúrgicas positivas ou recorrência tumoral. Dentre eles:

  • Giulioni et al. (2023) – Meta-análise de 26 estudos, publicada no Cancers, demonstrou que o uso de ICG em nefrectomia parcial robótica está associado a menor tempo de isquemia e preservação superior da função renal em curto prazo, sem aumento nas taxas de margens positivas ou recidiva tumoral.
  • Krane et al. (2012) – Estudo prospectivo comparativo com 94 pacientes mostrou que o uso do Firefly reduziu significativamente o tempo de clampeamento e facilitou a perfusão seletiva.
  • Yang et al. (2022) – Em análise publicada no Cancers, reforçou o benefício clínico em preservação dos néfrons, com menor necessidade de conversão e menor taxa de complicações.

Assim, o uso de fluorescência com ICG reduz o tempo de isquemia quente e melhora a preservação funcional renal, um dos desfechos mais críticos em nefrectomias parciais.

Delineamento Anatômico Vascular e Diferenciação Tumoral

A fluorescência com ICG permite visualização precisa da anatomia vascular renal, facilitando o clampeamento seletivo dos vasos e a identificação de tumores hipofluorescentes em relação ao parênquima normal. 

Isso auxilia na ressecção tumoral segura, especialmente em casos de tumores complexos ou com vascularização desafiadora, o que contribui para margens cirúrgicas negativas. A maioria dos carcinomas de células renais não apresenta fluorescência, o que permite sua distinção intraoperatória do tecido renal saudável.

Nesse aspecto, um dos grandes avanços proporcionados pela fluorescência é a chamada navegação vascular intraoperatória. O mapeamento da árvore arterial renal em tempo real permite o clampeamento segmentar seletivo, limitando a isquemia ao território tumoral.

Apoiam essa questão alguns estudos:

  • Tobis et al. (2011): demonstraram que tumores renais são hipofluorescentes em relação ao parênquima normal, permitindo ressecção segura e precisa.
  • Diana et al. (2020): Em uma série multicêntrica publicada no European Urology, confirmaram a aplicabilidade da fluorescência no planejamento intraoperatório e no clampeamento seletivo em nefrectomias complexas.
  • Sentell et al. (2020):  Mostraram que a fluorescência auxilia na avaliação de margens cirúrgicas, aumentando a confiança da ressecção oncológica.
  • Angell et al. (2013): Demonstraram estratégias para otimizar a localização tumoral por fluorescência, inclusive em lesões desafiadoras.

Logo, a fluorescência com ICG facilita a identificação de vasos segmentares, aumenta a precisão do clampeamento seletivo e diferencia tumores do parênquima normal.

Segurança e Padronização da Técnica

O uso de indocianina é considerado seguro, sem relatos de eventos adversos significativos relacionados ao corante nos estudos analisados. Estratégias de dosagem padronizada de ICG aumentam a confiabilidade da diferenciação entre tumor e parênquima, com altas taxas de sucesso na obtenção de fluorescência diferencial e baixíssimas taxas de margens positivas. 

A tecnologia Firefly pode ser especialmente útil em casos de tumores endofíticos, angiomiolipomas e situações em que o clampeamento seletivo é desejável.

O uso de ICG é considerado seguro, com raríssimos relatos de reações adversas. A dose mais comum é de 2,5 a 5 mg IV, podendo variar conforme o protocolo.

  • Diana et al. (2020) e Sentell et al. (2020) ressaltam a necessidade de padronização da dosagem e tempo de injeção para consistência na fluorescência e na diferenciação entre tecidos.

Dessa forma, pode-se dizer que a ICG é uma ferramenta segura, reprodutível e padronizável, o que aumenta sua aplicabilidade na prática clínica.

Impacto na Prática Clínica Atual

A incorporação da fluorescência com ICG na nefrectomia parcial robótica reflete uma tendência mais ampla da cirurgia moderna: a integração de imagem intraoperatória como ferramenta de decisão em tempo real.

Atualmente, a tecnologia Firefly é utilizada em diversos centros de referência mundial como parte do arsenal padrão em nefrectomias robóticas, principalmente em:

  • Tumores renais complexos;
  • Situações em que o clampeamento seletivo ou sem clampeamento é desejado;
  • Casos em que a preservação funcional máxima é prioridade, como rim único ou doença renal crônica.

A fluorescência com ICG associada ao Firefly consolidou-se como um marco na era da cirurgia robótica guiada por imagem. A respeito disso, a literatura demonstra benefícios consistentes em:

  • Preservação da função renal pela redução do tempo de isquemia.
  • Ressecção mais precisa, com diferenciação tumoral clara e altas taxas de margens negativas.
  • Segurança e possibilidade de padronização da técnica.

Sendo assim, a literatura médica atual sustenta que a tecnologia Firefly com ICG em nefrectomias robóticas oferece benefícios funcionais, anatômicos e de segurança, sendo uma ferramenta valiosa para maximizar a preservação dos néfrons e a precisão cirúrgica, especialmente em tumores renais de maior complexidade.

Ainda que ensaios randomizados de maior escala sejam necessários, os dados disponíveis suportam fortemente a utilização dessa tecnologia como padrão de excelência em nefrectomias robóticas de alta complexidade.

Referências

  1. Angell JE, Khemees TA, Abaza R. Optimization of Near Infrared Fluorescence Tumor Localization During Robotic Partial Nephrectomy. J Urol. 2013;190(5):1668-73.
  2. Diana P, Buffi NM, Lughezzani G, et al. The Role of Intraoperative Indocyanine Green in Robot-Assisted Partial Nephrectomy: Results From a Large, Multi-Institutional Series. Eur Urol. 2020;78(5):743-749.
  3. Giulioni C, Mulawkar PM, Castellani D, et al. Near-Infrared Fluorescence Imaging With Indocyanine Green for Robot-Assisted Partial Nephrectomy: A Systematic Review and Meta-Analysis. Cancers. 2023;15(23):5560.
  4. Krane LS, Manny TB, Hemal AK. Is Near Infrared Fluorescence Imaging Using Indocyanine Green Dye Useful in Robotic Partial Nephrectomy: A Prospective Comparative Study of 94 Patients. Urology. 2012;80(1):110-6.
  5. Sentell KT, Ferroni MC, Abaza R. Near-Infrared Fluorescence Imaging for Intraoperative Margin Assessment During Robot-Assisted Partial Nephrectomy. BJU Int. 2020;126(2):259-264.
  6. Tobis S, Knopf J, Silvers C, et al. Near Infrared Fluorescence Imaging With Robotic Assisted Laparoscopic Partial Nephrectomy: Initial Clinical Experience for Renal Cortical Tumors. J Urol. 2011;186(1):47-52.
  7. Yang YK, Hsieh ML, Chen SY, et al.Clinical Benefits of Indocyanine Green Fluorescence in Robot-Assisted Partial Nephrectomy. Cancers. 2022;14(12):3032.